|
Textos
Indiferença mãe da Corrupção e da Impunidade.
Mais um assassinato bárbaro. Uma senhora benzedeira, amiga de todo mundo que só fazia o bem. Cuidava de uma pessoa idosa com muito amor e carinho. Era benquista por toda a vizinhança e todos sem exceção falavam bem dela. Até hoje não se sabe quem cometeu esse crime. Foi encontrada degolada, sem uma orelha e sem parte de um braço. Bem próximo ao local onde há pouco tempo foi encontrado o cadáver de um jovem carbonizado e com uma perfuração na nuca. Conviveu segundo algumas testemunhas com a tortura das ameaças por telefone. Tinha medo de andar na rua. Seu dia a dia era dividido entre a preocupação com os sete filhos, sendo um deles com problemas de saúde e com o seu trabalho de diarista em varias casas da cidade. Como faço diariamente liguei meu computador às cinco horas da manhã e encontrei em minha caixa postal três mensagens. Entre elas uma de minha filha repassando-me um e-mail com o seguinte teor: “Meu nome é Thiago. Minha esposa foi assassinada no dia 23 de setembro de 2009. Polyanna Arruda Borges Leopoldino, uma publicitária de enorme talento, uma pessoa de bem e uma cidadã exemplar. Ela amava a vida. Ela produzia crescimento e arte para a sociedade. Incentivava empresários e estudantes. Se preocupava em ajudar pessoas carentes. Tinha uma vida íntegra, dedicada ao bem ao próximo e à fé em Deus. Tinha sonhos para realizar. Queria ter filhos e criar projetos de boas ações para tornar o mundo melhor. O motivo dessa carta não é apenas compartilhar com você a minha dor. Quero dividir sim o vazio que é perder uma pessoa amada de forma tão cruel. Mas o motivo maior é dizer para você que isso acontece todos os dias ao nosso lado, mas a gente finge que não vê e continua seguindo em frente sem fazer nada para promover mudanças. É, mas agora aconteceu comigo. Minha esposa foi morta cruelmente com oito tiros, sem motivo algum. Ela foi abordada quando ia para a Universidade Católica de Goiás palestrar para jovens universitários sobre empreendedorismo, consciência ambiental e social, lema da agência de propaganda que ela criou e liderou com muito talento e amor por cinco anos. Há dois meses a polícia investiga o caso, sem respostas. E se fosse com você? Se tivessem matado sua esposa, seu esposo ou sua filha? Como você se sentiria? Como seria o seu Natal esse ano? Como seria a sua vida daqui para frente? Você pode se colocar no meu lugar por um minuto? Só de imaginar dá calafrios não é? Hoje sinto na pele, na alma e no coração como é o mundo que a gente vive. E eu, que mudava de canal para não ver violência no noticiário, agora vivo isso 24 horas por dia. Minha vida perdeu o sentido. Perdi minha mulher que amava e agora não posso mais mudar o que aconteceu. Mas amanhã, meu caro amigo ou amiga, pode ser você ou alguém que você ama a próxima vítima! Será que não podemos fazer nada para tentar mudar isso? Será que a corrupção e a violência são maiores que a fé e a vontade de fazer o bem nesse mundo? O meu apelo é para que não mude de canal ou tape os ouvidos. Leia essa carta, reflita, sofra um pouco a minha dor se for possível. Veja o que acontece dentro de você, dentro da sua casa. Muitas vezes o crime começa dentro dela. Nós, a classe média, a classe intelectual, por incrível que pareça, sustentamos esse mundo de drogas, tráfico, armas, roubo, corrupção e impunidade. Abram os seus olhos de uma vez! Vamos deixar de ser hipócritas e pelo menos uma vez na vida olhemos para o que acontece diante dos nossos olhos. Minha vontade é de lutar em união com aqueles que desejam um mundo mais seguro para nossas famílias. Infelizmente ainda não sei como. Talvez só de falarmos sobre isso já estejamos dando o primeiro passo. Então você empresário, jornalista, publicitário, funcionário público, estudante que estiver lendo essa carta, abra os olhos. Abra a boca. Reclame da nossa situação. Ajude-me a dizer para todo mundo que nós não queremos mais viver à mercê da injustiça, da impunidade, da violência e da corrupção no nosso país. Desculpem o desabafo. Obrigado. Thiago Leopoldino. thleopoldino@gmail.com” Não posso ficar indiferente a esse apelo. Não me canso de dizer que também não tolero mais esse tipo de coisas. Não aconteceu comigo nada disso ainda. Mas confesso que como humano tenho medo. É preciso fazer alguma coisa. Falar. Gritar. Berrar e espernear. Não fique indiferente você também. Amanhã pode ser você ou um dos seus e sofrer essa dor. Faça alguma coisa. Assine um abaixo assinado. Denuncie o crime que você presenciar. Não tenha medo. Ficar calado com receio de represálias é permitir o sucesso do criminoso. Observe seus filhos. Quais as suas amizades? Verifique se não está sumindo pequenos objetos de uso pessoal seus, de sua residência. Isso pode ser indício de que alguém de sua família está usando drogas. Não seja indiferente a dor alheia. Faça alguma coisa.
|
Rubens Silva |
 | Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Citar o Autor: Rubens Silva, disponível em: www.rubensasilva.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. |
Publicado em 14/12/2009 às 09h40
|